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Sem tempo, irmão!

Estou sumida, eu sei. Tudo tem a ver com o título desta newsletter e vocês entenderão ao longo do texto, prometo.


A primeira coisa que vocês entenderão, agora, é que não gosto de narrativas apressadas. Uma história precisa de tempo para ser contada, até saboreada, e tempo é tudo que não temos hoje em dia.


Mas, para me ler, precisa de tempo.


Eu sempre gostei de escrever. Não apenas livros: sou da turma dos blogs. Quando tudo aqui era mato, eu fiz amizades em fóruns de discussões, fóruns de fãs, e criei tantos blogs quanto eu consegui gerir. Meu blogspot (alerta máximo de informação cringe!) é até hoje cheio de endereços variados porque eu criava um blog para tudo que me atraía.


Então, escrever essa newsletter é a forma que encontrei de manter essa chama acesa. A Tatiana dos blogs sobrevive à enxurrada de vídeos que se tornou o mundo virtual.


Agora que vocês sabem um pouco do motivo por trás desse espaço, vamos ao tema de hoje.


Não é de hoje que discutimos o valor do tempo. Valor intrínseco e extrínseco, valor até mesmo financeiro. Tenho certeza de que, se pudessem, pessoas comprariam um dia de trinta horas como compram pacotes de dados de internet.


Em 2011, o filme O Preço do Amanhã mostrou uma sociedade distópica onde pessoas precisavam trabalhar para comprar tempo de vida. Ninguém envelhece além dos 25 anos. Os ricos vivem para sempre, os pobres morrem jovens (esse é literalmente o bordão do filme).


Não chegamos ainda ao ponto de morrer por falta de tempo, mas o tempo custa tanto que levar uma pessoa a perder tempo pode gerar indenização por danos morais.


(a repetição não é sem propósito)


Eu tenho 3 trabalhos.


Obviamente não estou acostumada a tempo livre. Advogo em home office, leciono várias disciplinas jurídicas em um centro universitário e escrevo profissionalmente. Não encaro nenhum desses trabalhos como passatempo ou diversão — eles são minha fonte de renda, o sustento da minha casa.


Isso só se torna um problema quando olhamos para a perspectiva de um mundo onde ninguém tem tempo e pensamos que escrever um livro — que é arte e demanda tempo — se tornou uma atividade tão mecânica que estão considerando substituí-la pela inteligência artificial.


Spoiler: não vão.


Spoiler: mas tem gente lendo livro de IA e achando ótimo.


Sei que vou causar polêmica aqui, mas meu objetivo não é provocar, apenas convidar à reflexão:


A arte demanda tempo.

Construir uma boa trama e dar a ela bons personagens é uma atividade que exige bem mais do que intuição e boa vontade: exige técnica, estudo, inspiração, transpiração e até mesmo o tempo do ócio criativo, que nos permite ruminar a história que fermenta em nossa alma.


Mas o sistema não deixa as autoras indies terem tempo. A maior plataforma de publicação de ebooks é mercenária, foi invadida pela inteligência artificial em todos os seus aspectos — tanto no que vende quanto em quem nela trabalha — e nos obriga a lançar compulsivamente um livro atrás do outro, mesmo que, adivinhem?


As leitoras também não possuam tempo para consumir todas essas histórias no tempo em que a plataforma nos exige entregá-las.


Pode parecer exagero, dizer que eu, profissional liberal, sou obrigada a entregar livros num determinado prazo. Afinal, sou minha própria chefa, não sou? Não sou. Quem vive da escrita precisa ganhar dinheiro com ela, e ganhar dinheiro significa lançar no ritmo do mercado capitalista que não é saudável salubre ou humanamente viável.


O tempo do capitalismo é incompatível com a vida.

E hoje, nós, autoras indies, que precisam da renda de nosso livros para pagar boletos, estamos nas mãos dele. Do capitalismo, cada vez mais selvagem, que dita as regras de um mundo em que um percentual ínfimo da população ganha mais dinheiro do que jamais poderia gastar, enquanto a imensa maioria precisa se matar para uma vida nem sempre digna.


A falta de tempo também é incompatível com o processo criativo de muitas de nós.

Para você que está remando contra a maré e tentando equilibrar criatividade e mercado literário, recomendo uma leitura revigorante: Story is a State of Mind, da Sarah Selecky.


Ele já me ajudou mesmo quando concluí que não consigo fazer muita coisa para resolver meu problema de tempo. Saibam mais visitando o site da Sarah.



Dia 08/03 foi o Dia Internacional da Mulher.


Um dia de luta, não de parabéns. Não tenho nada para agradecer por ser mulher em um mundo que nos mata, nos vilaniza, nos ridiculariza, nos desconsidera como seres humanos. Vão me parabenizar por que? Estar viva hoje e não ter virado estatística ainda?


Um dia de reflexão, não de flores. A mão que dá flores hoje é a mesma que agride, amanhã.


Um dia de mudança, não de comemoração. Não se celebra seis mulheres mortas por dia, nem 82% de mulheres temendo por suas vidas, nem os estupros coletivos ou feminicídios que aconteceram no próprio dia 08/03. Não há absolutamente nada para se comemorar no dia da mulher.


Um dia de luto.



A literatura feminina é uma arte de resistência. Por mais difícil que seja, não pare de escrever. Não pare de ler. Não tema ler o erótico, o sensual, o romântico. Não se intimide por quem tenta nos reduzir. Não permita que o patriarcado nos devolva para as bancas de revistas.


A distorção de enredos e personagens em alguns romances não decorre da “mente” de algumas autoras, mas da cooptação do patriarcado sobre nossa arte. Homens odeiam ser retratados por nós porque nós os fazemos respeitadores, apaixonados, parceiros e interessados em nossa vida.


Curiosamente, nós detestamos ser retratadas por eles, pois tudo que enxergam na mulher é um corpo sexualizado, pronto para ser assaltado sexualmente por outros homens, ou uma mãe. Eles não nos veem como parceiras, companheiras ou aptas, apenas como receptáculos dos seus filhos (que muitos não querem) ou de seus órgãos genitais.


O crescimento do conservadorismo que oprime gênero e sexualidade, somado à facilidade com que os discursos violentos e misóginos chegam aos nossos filhos está ameaçando as próximas gerações, aquelas que tentamos educar melhor. Nesse ambiente, nossos livros são sumariamente atacados, criticados e desconsiderados como literatura “de valor”.


Capitalismo a parte, a literatura feminina é um ato de resistência.



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Tatiana Mareto - escritora de romances

Tatiana Mareto @ 2020 - Todos os direitos reservados.

 

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