Você não é abusiva o suficiente para escrever dark romance
- Tatiana Mareto

- há 3 dias
- 4 min de leitura
O texto abaixo pode ser indigesto para você que lê dark romances, pois não poupo críticas ao que esse gênero é ou se tornou. Leia por sua conta e risco.
Eu disse essa frase para mim mesma, várias vezes nos últimos dois meses.
Até o final de outubro eu acreditava que era capaz de escrever dark romances. Na verdade, eu jurava que tinha uma trilogia dark — Los Cobras — e que as leitoras que procuravam relacionamentos abusivos em livros encontravam autoras oferecendo relacionamentos abusivos e deturpando o conceito de dark romance.
Com base em fontes (dos desejos, Arial e tirei doku), a Tatiana escritora considerava que um dark romance era sombrio, tratava temas pesados e nem sempre com máxima responsabilidade, tratava de personagens imorais e amorais e não oferecia redenção. Os ambientes eram quase todos abusivos, mas o romance, não.

Foi aí que descobri que não sou abusiva o suficiente para escrever um dark.
Porque o gênero demanda (será mesmo?) uma dinâmica de desequilíbrio de poder entre o casal e eventualmente (quase sempre) consentimento duvidoso, que pode gerar desde histórias baseadas na síndrome de estocolmo até o tal do “consentimento não consentido”, que é uma prática de fetiche e que já foi bastante deturpada em romances para justificar o estupro entre os protagonistas.
Curiosamente, eu também descobri que leitoras de dark romance procuram “profundidade emocional” em romances muito sensuais, o que em nenhum momento se configura como relacionamento abusivo. Não precisamos que o mocinho estupre ou sequestre a mocinha, prenda-a contra a sua vontade e trate-a como objeto para entregar profundidade ou catarse.
Confesso que entendo o apelo. Há muitos anos eu li um que transbordava abuso entre os protagonistas. Toda cena de sexo era também uma cena de estupro, até que a mocinha “finalmente se apaixonou” pelo mocinho. E ele se apaixonou por ela também ???? e a salvou de um destino miserável ??????
Foi minha única experiência com esse tipo de história e não pretendo repetir.
Não consigo romantizar violências entre um casal porque a vida real grita todo dia no meu ouvido com casos de mulheres de verdade que foram assassinadas, estupradas, agredidas, encarceradas por seus companheiros, pais, maridos, irmãos. Mulheres adultas, meninas, adolescentes; mulheres heterossexuais ou lésbicas, mulheres cis ou trans. Milhões de mulheres sofrem todo tipo de violência todo ano, então eu simplesmente não consigo entender como outra mulher pode transformar isso em… romance.
É mentira. Eu entendo. Só que dissertar sobre isso agora demorará muito tempo e não será nada fácil. Em resumo, somos vetores do patriarcado e o contramovimento está aí, para nos recolocar em nossos lugares.
Porém, eu me recuso a admitir que meus livros não sejam dark, porque eles são. Os temas são intensos, pesados, violentos. Os personagens transitam nas sombras da moralidade, cometem crimes, não sofrem punições. Ninguém se redime. Meus romances são dark, meu livro novo é dark, e não me importa que nenhuma mocinha sofra abuso nas minhas histórias — elas são dark e só a minha opinião importa.

Você chegou até aqui e pode me dizer: mas Tatiana, é ficção! Ninguém acredita mesmo nisso, deixe as leitoras sonharem!
Sim, é ficção. Mas sério que alguém quer sonhar em ser estuprada, sequestrada, violentada, agredida e maltratada pelo homem que ama? Exceto em casos de fetiches, em que o consentimento existe, nenhuma violência é gratuita e há combinados muito claros sobre todas as regras do relacionamento, estamos falando de sonhar com um companheiro que te degrada e poderia (muito provavelmente irá) te matar a qualquer minuto.
E, bem, há mulheres que sonham em encontrar o “homem perfeito” na Coreia do Sul e que acreditam que estão se relacionando com o Brad Pitt2. Muita gente vive no mundo da fantasia fomentado por propaganda. Eu, como autora, tenho muita responsabilidade com o que escrevo. Meu livro não é apenas ficção e, apesar de não ser um manual de bom relacionamento, também passa uma mensagem.
Afinal, meus livros não são apenas livros.
Depois do desabafo da realidade, queria convidá-las a conhecer meu dark romance (sim senhoras!) recém-lançado, Nas Mãos do Assassino.

Ela fingiu a própria morte depois de uma tentativa de assassinato.
Ele foi contratado para encontrá-la.
Depois de descobrir um esquema criminoso dentro do próprio escritório, Ivy Caldwell forja a própria morte para sobreviver.
Agora, vivendo sob um disfarce frágil e aterrorizada pela certeza de que será encontrada, Ivy aprende que não existe esconderijo perfeito. Especialmente quando Declan Cross entra em cena.
O cliente misterioso de cabelos escuros e jaqueta de couro que a enxerga além do disfarce tem apenas uma missão: encontrá-la, protegê-la e descobrir quais provas ela esconde.
Juntos, eles iniciam uma corrida contra o tempo e os inimigos. Entre descobertas de traição, perigos e confrontos mortais, Ivy e Declan descobrem que não estão enfrentando apenas mercenários imparáveis, mas um desejo que não para de crescer e pode colocar tudo a perder.
Por hoje é só, mas continuaremos com nossos textos nos dias 10 e 25. Quando caírem no final de semana, prorrogarei o texto para a segunda-feira, ok?
Beijo grande e fogo no patriarcado!

NOTAS:
A Coreia do Sul está longe de ser um exemplo na proteção das mulheres, tem uma sociedade fortemente patriarcal e machista, pautada na submissão feminina, eestá vivenciando uma imensa crise de fertilidade porque as mulheres simplesmente não querem se relacionar com os homens de lá. Se ficaram curiosas, procurem sobre o movimento 4Bs na Coreia do Sul.
Um número significativo de mulheres sofre golpes de homens se passando por príncipes encantados ou celebridades, mas na verdade são apenas golpistas que procuram na idealização cultural do mito do amor romântico para tomarem o dinheiro delas. Por isso temos a expressão “estelionato sentimental” para definir homens que enganam, ludibriam e roubam mulheres.



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