(não) Matem o mensageiro!
- Tatiana Mareto

- 20 de nov. de 2025
- 8 min de leitura
Informação importante sobre o texto abaixo: ele pode ser difícil. Não porque é tenso ou pesado, mas porque decorre de conhecimentos prévios que adquiri lendo e estudando muito.
Mas não tenha medo. Leia textos difíceis. Procure conceitos que não conhece. Aprenda uma palavra nova todo dia. Não pergunte ao ChatGPT, desafie-se.
Se no final sobrar dúvida, pergunte. Quem não tem dúvida, só é capaz de repetir (Cortella).
O mundo literário vive de reciclar polêmicas com cores e roupas diferentes. Será que é assim em todo lugar? Talvez.
Eu estava prestes a vir falar aqui sobre inspiração e cópia descarada e de como “nesse mundo, nada se cria, tudo se copia”, mas outra confusão generalizada mais recente atraiu a minha atenção, principalmente porque eu estou finalizando a leitura de Sociedade do Cansaço do Byung Chul.
Nesta nova treta temos:
Homens atacando romances (nada de novo sob o sol)
O capitalismo ditando todas as nossas decisões
O emburrecimento causado pela bolha (e pela falta de amplitude de gostos e pensamentos)
O malvado algoritmo que, estando a serviço do capitalismo, existe para nos empurrar para o abismo do hiperconsumo.
Não que essas coisas tenham sido tratadas da forma como coloquei aqui. Claro que o homem em questão tem certeza de que não está atacando romances. Ele até fala do capitalismo e de todo o resto, mas com a profundidade de um pires e eu, como boa cientista que sou, detesto análises rasas.
Separei uns duzentos itens para debater, levantei alguns conceitos para discussão e percebi duas coisas. A primeira: redes sociais não são espaços de debates. A segunda: por que raios só tem homem falando sobre isso?
Se você está lendo essa newsletter e conhece filósofas mulheres que debatam hiperconsumo, neocapitalismo e redes sociais, me indique por favor!
ABRINDO PARÊNTESES: PAREM DE CRITICAR ROMANCES ESCRITOS POR MULHERES.
Não vou me ater a este ponto hoje, mas chega. Já deu. Homens da literatura, parem se de doer porque o ranking de ebooks mais vendidos da Amazon é ocupado majoritariamente por romances femininos.
Mulheres escrevem para mulheres há séculos e nossa literatura sempre foi marginalizada, jogada de escanteio, considerada subliteratura e “romance de banca”, sem o direito de ser vendida em livrarias.
O ranking da Amazon não representa um universo de leitoras, apenas uma bolha bem localizada. Temos ali um recorte muito específico: mulheres que gostam de romance também são consumidoras do combo Amazon > Kindle > Kindle Unlimited.
Nós não vamos nos calar, vocês não nos silenciarão, e aproveitem enquanto ainda estamos irritadas o suficiente para engajar seus discursos recalcados, porque em breve não nos importaremos mais. Parem de falar da gente, parem de questionar nossa inteligência e nossa capacidade, parem de se doer porque nossa literatura conquistou um lugar de destaque.
FECHANDO OS PARÊNTESES.
Mas vamos lá aos pontos que separei para nosso não diálogo, já que redes sociais também não são um espaço de proximidade, mas de isolamento e ensimesmamento.
A culpa é do capitalismo.
Sempre. Não importa do que estamos falando, a culpa será do capitalismo, esses sistema titânico e hegemônico que engole tudo e todas, que forma e desforma, que molda gostos e comportamentos e nos transforma em autômatos a serviço da produção e do consumo em massa.

Vivemos uma crise estética e essa crise é culpa do capitalismo, já que é ele quem dita o que gostamos ou consumimos. E o capitalismo é tão sagaz que primeiro nos fez acreditar que só ele funciona e só ele gera prosperidade, riqueza e alegria (enquanto exacerba cada vez mais a distância entre os pouquíssimos bilionários e a imensa maioria miserável), depois assumiu diversas formas para atuar silenciosamente sem que percebamos que é ele sussurrando no nosso ouvido quando estamos prestes a decidir qualquer coisa.
O bom capitalismo é impermeável às críticas e quase invisível.
Ele se infiltrou na arte e na estética, porque a arte é política, é crítica, é subversiva. A arte é a manifestação máxima de expressão de alguém. A arte é — deveria ser — libertadora.
E foi cooptada pelo capitalismo.
Existe um número muito grande de pessoas que escreve para além da arte. Quando eu escrevia fanfictions e não tirava da literatura o meu sustento, escrevia o que queria e como queria porque não precisava vender livros para pagar meus boletos. Eu ainda estaria “fazendo minha arte” se não tivesse tomado a decisão de me profissionalizar como autora publicada, o que exige dedicação ao mercado consumidor das leitoras.
Dedicação ao mercado é igual a moldar sua arte aos anseios do público. Não é que perdi minha identidade nem passei a escrever qualquer coisa só para vender, eu apenas estudei o público (que nem sei direito quem é) e tentei ajustar coisinhas aqui e ali para tornar minhas histórias mais interessantes para as leitoras de romance.
Ah, mas então você está confirmando exatamente o ponto que o senhor moço do vídeo disse!
Estou. Nunca disse que ele não está errado, apesar de eu não gostar de do discurso ter reduzido o problema às leitoras de romance (porque ele fez isso, sim!). Muitas autoras — artistas! — adequam suas histórias ao que querem as leitoras para entregar produtos interessantes.
ATENÇÃO! ABRINDO PARÊNTESES PARA DIZER ALGO IMPORTANTE!
Livros são produtos. Escrita é arte. Nem toda escrita está nos livros. Nem todo livro é arte.
FECHANDO PARÊNTESES.
A tônica da discussão não está no que autoras *** precisam *** escrever, mas no que leitoras *** anseiam *** por ler.
Aí vamos para todos os outros pontos levantados, que representam a essência da culpa do capitalismo: ele dita nossas decisões, ele nos emburrece propositalmente e ele nos mantém presas a uma bolha de igualdade e conformidade causada pelo algoritmo de tudo.
Quotando Lipovetsky e Serroy,
É de uma estética do consumo e do divertimento que se trata: não mais artes destinadas a comunicar com as forças invisíveis ou elevar a alma pela experiência extática do Absoluto, mas sim “experiências” consumatórias, lúdicas e emocionais aptas a divertir, a proporcionar prazeres efêmeros, a vitaminar as vendas. (A Estetização do Mundo: Viver na Era do Capitalismo Artista. p. 34)
Agora eu vou dizer uma coisa muito sensível, muito difícil, com vários dedos apontados para mim, mas que é dura, amarga e indigesta. Preparem o Sonrisal.
O excesso do mesmo nos isola, nos afasta do outro e nos envolve em redomas estéreis livres de conflitos e de dores. Mas o conflito é bom e a dor é necessária. Não existe sociedade sem conflito, não existe o outro sem diferença e não existe crescimento sem dor.
Isso nos conduz a uma espécie de estado de suspensão onde tudo é ruído e as pessoas são reduzidas a números e performances. Tudo vira estética consumível e a hiperinformação leva à deformação.
É aí que vem o “emburrecimento” e é aqui que o algoritmo nos revela uma terrível verdade: nessa sociedade capitalista de hiperconsumo, somos bombardeados com o mesmo até a exaustão, a ponto de acreditarmos que só o mesmo existe e só o mesmo é bom. Quando o mercado se cansa do mesmo, a roda gira, o algoritmo trabalha e de repente nossos gostos mudam.
Então…
Não estamos “emburrecendo” porque queremos ler sempre a mesma coisa, mas queremos ler sempre a mesma coisa porque estamos “sendo emburrecidas”.
Pronto, agora o cancelamento vem!
(Tatiana, cai na real. Você não tem relevância para ser cancelada.)
Esse é um dos problemas causados pelo excesso de existência virtual e pelo hiperconsumo. Estamos cronicamente online o tempo todo, sendo bombardeados por informação que não é processada em conhecimento porque não há tempo para isso. O conhecimento requer o tempo da reflexão, o tempo do ócio, o tempo da fermentação. Conhecimento não é miojo, requer preparo demorado, o enfrentamento de conflitos e a superação de dificuldades.
Estamos cada vez mais informados e cada vez menos produzimos conhecimento.
Conhecimento é redenção. (Byung Chul Han, A expulsão do Outrop. 14)
Também estamos excessivamente expostos, desnudados diante das Big Techs, e somos presas fáceis para o algoritmo, que identifica tudo que pode sobre nossos mínimos gostos e nos empurra goela abaixo aquilo que nós até curtimos, mas que não precisamos ver o tempo todo.

A dominação neoliberal se esconde por trás da liberdade ilusória. (Byung Chul Han, A expulsão do Outro. p. 69)
Isso não apenas torna muito difícil a exposição a algo novo ou diferente, porque requer um esforço que não estamos dispostos a realizar: como assim eu tenho que procurar alguma coisa? Não é só rolar o feed? Também faz com que sejamos expostos àquilo que o mercado acha que podemos gostar (mesmo que não tenhamos demonstrado nada) ou, pior ainda: somos porosos àquilo que o mercado decidiu que devemos gostar.
Chegamos ao ponto em que o algoritmo decide o que nós devemos consumir, e não o contrário.
Antes que a newsletter se torne uma dissertação, vou encerrar com algumas conclusões.
Somos presas do capitalismo. Tanto quem escreve quanto quem lê está completamente à mercê de grupos que ditam as regras do jogo. Achamos que somos livres, mas nossa liberdade é guiada: escolhemos aquilo que fomos condicionadas a escolher.
O excesso do mesmo provoca deformações e nos afasta do outro. O outro aqui é o diferente, o não igual, o que não sou eu. A arte é o outro. Para se tornar o mesmo, precisa passar por um processo de descorporificação e é esse fenômeno que estamos observando com o movimento das “bolhas”. “A comunicação global permite apenas iguais outros ou outros iguais”. (Byung Chul, p. 16)
A ruptura do algoritmo não é um processo simples: ele é doloroso e leva tempo. Ele quer reflexão e busca ativa pelo diferente, pelo que não vão te entregar pronto. Existem muitos livros disponíveis. Livros escritos por todo tipo de pessoas, como todo tipo de conteúdo, com as mais variadas abordagens. Eles estão cada vez mais aí com a facilidade de autopublicação e a proliferação de pequenas editoras. Encontrá-los pode não ser fácil, mas talvez esteja na hora de entendermos que o fácil não nos provoca o mesmo prazer.
Por fim, ninguém é obrigada a “sair da zona de conforto”. Não é disso que falei até agora e não é essa a mensagem que quero deixar. Não somos obrigadas a “ler de tudo” como não somos obrigadas a comer jiló. Não vamos gostar de tudo e não vamos querer consumir de tudo, por isso a diversidade é tão importante. Porém. ATENTAS! Só sabemos o que não gostamos depois de provar. Temos o ***direito*** de não ler tudo, mas isso não nos exime da responsabilidade de saber que ***o outro existe***.
Termino com a citação mais bombástica da Expulsão do Outro que resume quase tudo em poucas palavras:
No inferno do igual, a imaginação poética está morta.
Deixo aqui minhas contribuições filosóficas de textos difíceis que precisam ser lidos mesmo para serem criticados e que tratam exatamente do que falei agora:
Byung Chul Han: A Expulsão do Outro
Gilles Lipovetsky e Jean Serroy: A Estetização do Mundo: Viver na Era do Capitalismo Artista
Mario Vargas Llosa: A Civilização do Espetáculo: Uma Radiografia do Nosso Tempo e da Nossa Cultura
ps1: Hoje é dia da Consciência Negra. Não é um dia de festa, mas de lembrarmos que o racismo estrutural mata. O capitalismo (que tem a culpa de tudo) anda de mãos dadas com o racismo. É papel de todas nós sermos antirracistas, não apenas hoje, mas desde que acordamos até o momento em que vamos dormir.
ps2: Não deixe que as Big Techs definam quem você é. Saia das redes e olhe para o horizonte. O mundo aqui dentro é esvaziado de sentido e, se não prestamos atenção, logo as máquinas ocuparão os espaços que deixamos.



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