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Às vezes no silêncio da noite...

Antes de começar este texto, eu quero dizer que, como autora de romances sensuais, eu me sinto estruturalmente excluída de um monte de coisas.


Desde que E. L. James ganhou as livrarias com seu Cinquenta Tons de Cinza de capa conceitual, o romance erótico luta contra uma correnteza brutal: conservadorismo crescente, desqualificação da literatura feminina, machismo, exclusão.


Enquanto isso, estandes voltados para romances “de mulherzinha” bombam nas feiras literárias e dominam a lista de mais vendidos da Amazon Kindle, o que desperta uma raiva ainda maior dos haters.


Bem. Taylor já dizia.


Agora, seguindo para o post, outra historinha.


Nenhum dos meus romances tinha hot. Quando comecei, eu era uma adolescente. Depois, foquei em fanfictions com muito angst e drama, mas sem qualquer cena explícita. Eu escrevia cenas românticas, sexies, cheias de sensualidade e paixão, mas não descrevia nada do ato sexual.


Isso mudou em 2012, graças a Cinquenta Tons de Cinza. O livro que reinventou o cenário da literatura erótica feminina também foi o catalisador do Tativerso 2.0. Depois de uma conversa com uma amiga e duras críticas à qualidade do texto de E. L. James, ela me desafiou.


O diálogo foi mais ou menos assim:


“Esse livro é muito ruim. Até eu escrevo melhor.”
“Tenho certeza de que sim”.
“Ah, mas estou blefando porque não escrevo hot”.
“E por que não? Pois está aí, escreva um livro melhor do que 50 Tons”.
“Melhor no sentido de mais bem escrito ou mais erótico?”
“As duas coisas”.

Desafio dado, desafio cumprido. Assim nasceu Jogos de Adultos e, depois dele, não parei mais de escrever livros eróticos.


Mas o post de hoje não é para falar sobre o quanto esses livros são importantes para mulheres nem entrar em nenhuma polêmica cíclica. Quero falar sobre cenas hots e os elementos que me ajudam (e podem ajudar você também) a escrevê-las.


Vamos combinar: escrever cenas de sexo é um desafio que até eu temia. Seja por vergonha, por achar complicado ou por medo de exagerar, algumas de nós se sentem inseguras na hora do hot. Até porque, quando a gente erra, provoca aquilo que chamamos de ick factor, que é aquele sentimento de desconforto que afasta a leitora.


Mas, como eu sou leitora de romances sensuais e acredito que cenas de sexo bem feitas podem enriquecer sua história, revelar os personagens e até avançar a trama, separei algumas dicas que me ajudaram a dominar (cof cof) o tema:


1. Construa tensão antes do sexo


Nada de começar a história com sexo logo de cara, tipo carrinho por trás sem bola1. As leitoras precisam sentir a química entre os personagens antes. Pequenos gestos, olhares, toques, diálogos carregados de insinuação: tudo isso cria aquele clima que faz o leitor querer continuar lendo.


E atenção!


  • Personagens únicos = desejos únicos. Não escreva a cena do seu ponto de vista, escreva do ponto de vista deles.

  • Mostre vulnerabilidades, inseguranças ou desejos inesperados. Isso dá profundidade emocional à cena.


2. Use todos os cinco sentidos

Esse é meu preferido!



Sexo é físico, mas a escrita é sensorial. Não limite a descrição ao que se vê nem use as palavras de forma que o texto seja a transcrição de um vídeo ruim. Inclua:


Toque: a sensação da pele, a firmeza de um abraço, o arrepio de um carinho.


  • Cheiro: perfume, suor, cheiro natural que desperta atração2.

  • Som: respiração ofegante, gemidos, sussurros.

  • Paladar: beijos, gosto da pele, até o café da manhã do casal, se fizer sentido.

  • Visão: cores, luz, roupas, o ambiente.


Quanto mais completa a experiência sensorial, mais o leitor vai sentir que está vivendo a cena junto com os personagens.


3. Mergulhe na cabeça do personagem


Como sexo também é emocional, mostrar o que se passa na cabeça das personagens é o que diferencia uma cena “qualquer” de uma cena inesquecível.


  • O que ela está pensando?

  • Qual é a reação emocional a cada toque?

  • Que memórias, medos ou desejos aparecem nesse momento?


Dica: monólogos internos ou pensamentos rápidos durante a cena tornam a narrativa mais atraente para as leitoras.


4. A cena de sexo deve avançar a história

Cenas eróticas gratuitas não agradam às leitoras. A grande maioria delas pula cenas em excesso3, cenas desnecessárias e aquelas cenas aleatórias que surgem do nada e servem apenas para encher o livro de páginas vazias. Cada cena íntima deve ter propósito na história.


  • Revelar conflitos internos ou dilemas do personagem.

  • Mostrar mudança de relacionamento ou conexão emocional.

  • Antecipar ou preparar decisões importantes.


Se a cena não acrescenta nada, é hora de repensar. Sexo com propósito é muito mais envolvente do que apenas quente.


5. Evite clichês e o ick factor

Essa daqui é complicada porque amamos um clichê, certo?


Mas as cenas sensuais podem ficar estranhas se você exagerar ou usar frases prontas o tempo todo. Também ficarão ruins se parecerem uma versão escrita de vídeos do x-video ou redtube. O objetivo do hot na literatura não é reproduzir a pornografia.


Minhas dicas são:


  • Evitar estereótipos sexistas ou comportamentos irreais.

  • Fugir das descrições genéricas que não refletem os personagens.


O segredo é realismo + autenticidade. Pense comigo: se fosse você, se sentiria atraído por essa história? Você iria querer ser seduzida por esse cara se ele estivesse falando essas coisas para você?


E, por fim, uma dica extra:


6. Encontre a sua própria voz!

Cada escritora tem um estilo. Não tente imitar outras autoras nem se baseie no que supostamente vende ou faz sucesso. Encontre a sua própria forma de escrever cenas de sexo, uma que combine com você e com sua história. Até porque cada história pede um hot diferente e os personagens não se relacionam todos da mesma forma.


Sua escrita pode ser sensual, romântica, intensa ou divertida, o que importa é que seja verdadeira e envolvente.


Escrever cenas de sexo não precisa ser complicado. Meu segredo é:


  • Construir conexão emocional antes da ação.

  • Explorar todos os sentidos.

  • Entrar na mente e no coração dos personagens.

  • Garantir que a cena avance a história.

  • Aumentar a tensão gradualmente.

  • Evitar clichês e exageros.

  • Escrever com sua voz única.


Foi quando entendi que o sexo na minha história não é só um ato físico, mas uma ferramenta poderosa de narrativa, eu me apaixonei por cada cena e não quero saber de outra coisa.


Ps: Os gifs são todos da série My Lady Jane, da Prime Video. Jamais perdoarei por terem cancelado essa série na primeira temporada. O casal tem uma química de milhões.


  1. Nem pedirei desculpas pelas referências futebolísticas porque sou maluca por futebol e elas aparecem sempre.


  1. Sempre digo que os livros da Elizabeth Hoyt são tão sensoriais que me fazem sentir o cheiro daquilo que ela está narrando. Gosto assim.


  1. Fonte: meus passeios diários no Twitter e eventuais no Threads.

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Tatiana Mareto - escritora de romances

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