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Mas ela não gosta de mim...

Quem tem a minha idade viveu essa música. Grupo Dominó, ano 1985. Foi o hit deles do primeiro álbum. Até meu irmão, que achava meu gosto musical péssimo, gostava dela.


Mas essa newsletter não é sobre música nem sobre nostalgia, mas sobre o aumento do valor do Kindle Unlimted e uma análise apocalíptica do mercado literário independente na Amazon - que não demonstra gostar muito de ninguém.


Preparem-se, a conversa é longa. Peguem um café.


Beba café. Faça coisas estúpidas mais rapidamente e com mais energia.
Beba café. Faça coisas estúpidas mais rapidamente e com mais energia.

Primeiramente, quero esclarecer que ser autora independente não se resume à Amazon. A autopublicação pode acontecer de várias formas, inclusive há plataformas muito utilizadas para venda de livros digitas em geral, como é o caso da Hotmart. Mas, para o mercado da literatura de ficção, é a Amazon o melhor lugar para tentar se viver da escrita.


Por quê?


Porque ela é a principal distribuidora de ebooks e tem um sistema de autopublicação chamado KDP (Kindle Direct Publishing) que é extremamente amigável (ou não, há controvérsias) para autoras independentes.


A Amazon é uma vitrine. Leitoras de todos os tipos procuram a plataforma para baixar livros e são bombardeadas com sugestões de outros livros de acordo com o perfil do consumidor. Quando você se destaca no algoritmo da Amazon, seu livro tem grandes chances de render uma pizza e uma Coca-Cola.


E ela ainda oferece o Prime, aquela preciosidade (?) com frete grátis para todo o Brasil, e o Kinde Unlimited (KU), que permite às leitoras lerem o quanto elas quiserem sem custo adicional. Quando nossos livros estão cadastrados para o Kindle Unlimited, as chances de render uma pizza aumentam. Dá até para pegar a borda recheada.


A assinatura mensal do KU custa(va) 19,90 Janjas há(via) muito tempo. Acho que não me lembro de quando custou outro valor. Não é baratinha, mas vale bastante à pena para quem lê muito (mesmo que muitos ebooks estejam sendo vendidos por 1,99). Vez em sempre a Amazon faz promoção para atrair novos (?) assinantes e coloca o preço a 1,99 por 3 meses ou até mesmo oferece 3 meses gratuitamente.


Ontem, todo mundo que é assinante recebeu um e-mail assustador: a assinatura vai subir 25% e passará a custar 24,90 Janjas.


As redes sociais se inflamaram: vamos cancelar imediatamente nossa assinatura!


Vi alguns cenários sendo pintados nas revoltas populares provocadas pelo anúncio do aumento do KU (sem trocadilhos):


  • Cancelaremos nossas assinaturas

  • Compraremos mais ebooks

  • Piratearemos mais livros

  • Pararemos de ler


Claro que não tenho a menor ideia do que vai acontecer e, considerando o quanto as pessoas se acomodam com algumas situações, existe a probabilidade do impacto não ser tão grande assim ou, caso seja, da Amazon começar a oferecer promoções estratégicas para manter o volume de assinaturas.


E existe a possibilidade que eu venho levantando há algum tempo: a Amazon pretende minar o KU até ele acabar.


Eu não cheguei ontem no mercado. Estou aqui desde antes do KDP chegar ao Brasil e vi a plataforma começar, crescer e engolir tudo o que tinha pela frente, como uma espécie de Galactus do mercado literário.


A Amazon é uma empresa predatória com clara intenção de arrasar o que tem pela frente para dominar pelo monopólio. Depois que monopoliza, ela passa a ditar as regras do mercado e a estabelecer o que é ou não de seu interesse. Alguns países, como a França, tentam desde sempre estabelecer leis rigorosas para proteger o mercado local contra a gigante engolidora de mundos, mas, no Brasil, ela reina absoluta no universo dos ebooks (e outros produtos, também).


Como sou uma autora que vende livros pela Amazon, minhas leitoras são, em sua maioria, usuárias da plataforma. Se eu desaparecer de lá, não me sustentarei com meu trabalho. Se meus livros não estiverem mais lá, terei que trabalhar para reconstruir uma base fora da maior vitrine de livros de ficção em internets nacionais. Isso leva tempo, tem um custo e talvez inviabilize minha carreira.


Só que a Amazon não precisa de mim como eu preciso dela. E o problema reside aí.


A Amazon não precisa de mim. Nem de você.

Ela pode aumentar o KU o quanto quiser. Pode acabar com ele em definitivo, ou pode extingui-lo em determinados países. Pode mudar as regras do jogo quando ela quiser porque nós é que dependemos do que ela oferece e não o contrário.


Ah, Tatiana, mas uma empresa não sobrevive sem clientes!


Não, não sobrevive. Mas mudar as regras do KU não afetará a Amazon como afetará quem publica e lê por lá. Ela é gigante. Ela é colossal. Ela é multibilionária. E ela tem o monopólio, conquistado com o sangue e suor das empresas que derrubou. Ela não precisa do KU. Quem precisa dele somos nós.


Se qualquer um desses cenários apocalípticos no estilo fim do mundo acontecer, nós, autoras de ficção, podemos nos prejudicar.


  1. A queda de assinaturas prejudica nossa remuneração. As “páginas lidas” (KENP) são remuneradas de acordo com o fundo global da Amazon, que se baseia primordialmente na renda produzida com o KU. Se o fundo aumenta, nossa remuneração aumente. Se o fundo diminui…

  2. A queda de assinaturas significa menos leitoras e menos descobertas dos nossos livros.

  3. A queda de assinaturas pode levar a Amazon a fazer mais promoções kamikaze que aumentarão os assinantes, mas diminuirão o valor do fundo e, consequentemente, nossa remuneração.

  4. A queda de assinaturas pode levar à maior compra de ebooks, mas por preços menores. Então, receberemos mais royalties por vendas, mas em valores inferiores ao que recebíamos, antes.

  5. A queda de assinaturas pode levar à maior busca por livros piratas. Tem muita leitora que acha que está tudo bem piratear livros, afinal, dane-se a autora que precisa dos royalties para pagar boleto. Quando a farinha é pouca, meu pirão primeiro (mesmo que a maioria dos ebooks nacionais custe menos de 10,00).


Eu não sei se nada disso vai acontecer. Espero que não mude em absolutamente nada, porque já estamos recebendo migalhas por cada KENP lida. Mas, se acontecer, não deve pegar ninguém de surpresa.


A Amazon não está preocupada conosco. O valor da assinatura do KU não vai aumentar como parte de um projeto de valorização de nada além do lucro da plataforma.


Não há aumento programado para o valor das páginas lidas.


  • Se a quantidade de assinantes do KU permanecer a mesma, o valor das KENP aumenta.

  • Se a quantidade cair, o valor das KENP pode permanecer igual ou cair.

  • Se a Amazon investir em promoções frequentes, o valor das KENP cairá (como vem acontecendo há algum tempo).


Esse aumento não é bom para as leitoras e uma grande incógnita para as autoras. Enquanto isso, seguimos no barco furado rumo ao continente que parece cada dia mais distante.


Ps1: Sobre o fim do KDP, eu já previ, no melhor das teorias da conspiração, de que a empresa não lucra com o sistema, portanto, não tem interesse nele. Não posso afirmar nada, mas a gente que está do lado de cá sente uns sentimentos estranhos. Então, me ignorem.


Ps2: Se a Amazon me banir porque eu falo rasgado tudo que penso, vocês prometem que continuam me seguindo e procurando meus livros em outras plataformas? =)


Vai aí uma listinha de livros para espancar o consumismo e o capitalismo e nos fazer refletir sobre a sociedade contemporânea?


 
 
 

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Tatiana Mareto - escritora de romances

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